quinta-feira, 18 de março de 2021

Colados e Descolados

Fui por 25 anos membro de uma igreja que nas últimas eleições, 2018, pediu votos para deputado estadual e federal em pastores e bispos da igreja, governador João Doria, presidente Bolsonaro e senador Major Olímpio.
Não sei de onde veio tal inspiração, impossível vir de Deus. Hoje vejo membros da igreja contra o então eleito por eles João Dória, até mesmo o ícone máximo político da igreja, o ex-prefeito Marcelo Crivella o chamou de "viado". Mas não é disso que quero falar.

Antes de tudo quero me solidarizar com amigos que tenho, os quais acompanhavam e apoiavam o trabalho do senador Major Olímpio, bem como também com seus familiares e amigos.

Sem me alongar, lembro como hoje a minha decepção ao ver o pastor lá do altar declarar o apoio da igreja ao Bolsonaro, isso é bastidores, porque lá fora o partido vinculado à igreja ainda estava na campanha do Alckmin para presidente. Tal apoio causou meu rompimento com a igreja, com a igreja não com o meu Senhor e Salvador Jesus Cristo, mas isso é uma outra história.

Pensei que a liderança da igreja estava momentaneamente sem visão ao apoiar Bolsonaro e que depois cairiam na real, mas depois descobri que a visão deles estava em outros horizontes e benesses que toda grande empresa precisa de um Governo Federal.

Doria é do marketing, um verdadeiro rato, colou o BolsoDoria em 2018, mesmo sabendo de tudo que a Ditadura, idolatrada por Bolsonaro fez ao seu pai e a sua família nos anos 60.
Logo que pode, João Doria descolou do presidente e com a pandemia virou então inimigo pessoal, ao ponto de ter agora apoiadores do presidente, disfarçados de pessoas que querem trabalhar, tentando invadir sua casa.

Major Olímpio fez o mesmo caminho, não acredito que foi um aproveitador como Doria, acredito que realmente apoiava e acreditou nas balelas do Bolsonaro na campanha, bem como se identificou com seu antipetismo e ainda costurou a aproximação do vice-presidente Mourão.
Mas não foram flores, primeiro veio a impossibilidade de alguém que tem vergonha na cara em apoiar os filhos do presidente, coisa que o partido da igreja fez, e com dois deles, depois a incompatibilidade de quem tem alguma empatia com quem o elegeu e com os demais seres humanos em ficar ao lado de um presidente genocida, o qual acumula mais de 100 declarações negacionistas e/ou de descasos com a pandemia.

Major Olímpio, não negacionista e pró-vacina, eleito também com votos da igreja, contaminou-se com a covid e se foi.
Se foi descolado do presidente genocida, coisa que a igreja não conseguiu fazer até hoje.

Paz.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

2021 pode ver reformas fiscais para lidar com COVID-19, desafios ambientais e muito mais

Governos e organismos internacionais buscam preencher déficits maciços à medida que bilionários e corporações multinacionais viram sua riqueza crescer durante a pandemia em curso.


Por Scilla Alecci

Ativistas climáticos em Amsterdã se reúnem no Museumplein com suas bicicletas para andar pelo centro da cidade durante o dia global de ação climática para exigir ações climáticas em 25 de setembro de 2020.


Especialistas em justiça tributária, firmas de contabilidade e diretores de planejamento tributário de corporações em todo o mundo estão atentos a um conjunto de mudanças fiscais que podem afetar tudo, desde serviços digitais a produtos de energia e muito mais.

Além de novos impostos já em cima da mesa, alguns também veem 2021 como uma oportunidade para introduzir políticas que poderiam ajudar os governos a lidar com questões econômicas exacerbadas pela pandemia do coronavírus e reduzir a desigualdade.

O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos perguntou a especialistas tributários internacionais quais mudanças eles estão prevendo.

"Em 2021, esperamos ver uma discussão acalorada sobre como projetar os futuros sistemas tributários em nível nacional e internacional", disse ao ICIJ Tove Ryding, gerente de políticas da Rede Europeia sobre Dívida e Desenvolvimento.

"Esses debates tributários apontam para a questão muito sensível de 'quem deve pagar a conta da coroa?'", Disse Ryding. "Os níveis extremamente elevados de endividamento, bem como o fato de que muitos bilionários e corporações viram sua riqueza e lucros crescerem para novos máximos durante a crise do COVID-19, apenas tornam este debate ainda mais importante e urgente."


Recuperação COVID-19 

Em 2020, a dívida global disparou para mais de US $ 270 trilhões devido à resposta de governos e empresas à pandemia COVID-19, de acordo com o Instituto de Finanças Internacionais. E a pandemia, com seu conseqüente impacto nas finanças dos países, ainda não acabou.

Em tal contexto econômico, "a prioridade imediata deveria ser apoiar as pessoas durante a crise", disse Stuart Adam, economista do Institute for Fiscal Studies em Londres.

Os próximos passos devem ser "estimular a recuperação conforme necessário e apenas em longo prazo (bem após 2021) para lidar com os enormes déficits e dívidas que estão sendo acumulados", escreveu Adam em um e-mail para o ICIJ.

Cada país terá então que escolher a política mais adequada para ajudar no apoio, estímulo e redução do déficit. E a política fiscal é apenas uma das ferramentas disponíveis, disse Adam.

Na Ásia, por exemplo, a Malásia foi um dos países mais elogiados por sua resposta ao coronavírus, apesar de estar em meio a uma crise política no início da pandemia.

"2021 é um ano de transição da crise para a recuperação", para o país, disse o ministro das Finanças, Tengku Zafrul Abdul Aziz, de acordo com o Maybank Investment Bank Research.

Para levantar as receitas necessárias para combater a emergência de saúde, o governo da Malásia está atualmente avaliando várias medidas, incluindo a introdução de um imposto sobre bens e serviços, disse o ex-conselheiro governamental e professor da Monash University Malaysia, Jeyapalan Kasipillai.


Corporações multinacionais e serviços digitais 

"O item mais importante em 2021" é o plano de reforma tributária digital da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, de acordo com Rasmus Corlin Christensen, economista da Copenhagen Business School. E o mesmo acontece com o esquema tributário mínimo global, disse ele.

Após longas negociações, a OCDE ー que agrupa 137 países e jurisdições ー deve chegar a acordo sobre novas regras no próximo verão que introduziriam um nível mínimo de tributação corporativa em todo o mundo e garantiriam que as multinacionais paguem impostos independentemente de sua presença física, incluindo empresas de tecnologia que fornecer serviços digitais, como Google ou Facebook.

Em uma declaração em outubro passado, a OCDE reconheceu a necessidade de uma solução e disse que, como resultado da pandemia, o público tem pressionado os governos para garantir que as multinacionais "paguem sua parte justa e o façam no lugar certo."

À medida que as negociações continuam, vigilantes da justiça tributária como Ryding monitorarão se as novas regras também beneficiarão os pequenos países em desenvolvimento.


Meio Ambiente 

A Europa verá "mudanças fiscais interessantes" em 2021, disse Stefan Speck, gerente de projetos da Agência Ambiental Europeia, que apontou algumas políticas ambientais em todo o bloco.

Como parte do pacote de recuperação de US $ 881 bilhões proposto para mitigar os efeitos da pandemia, a União Europeia aprovou um chamado "imposto de plástico" sobre o plástico não reciclável.

O imposto, que financiará o plano de recuperação, "não tem nada a ver com um imposto sobre o plástico em toda a UE", explicou Speck.

Cada estado membro da UE pode escolher se vai financiá-lo tributando diretamente o setor de plásticos ou por meio de outros métodos de tributação. O valor que cada estado deve será calculado de acordo com o peso dos resíduos de embalagens plásticas não recicláveis ​​que produz.

Em um esforço para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a Holanda e Luxemburgo também decidiram implementar um imposto sobre o carbono. A Alemanha introduziu a precificação do carbono voltada para os setores de transporte e construção.


Riqueza 

Nos Estados Unidos, muitos verão se o presidente eleito Joe Biden será capaz de implementar as mudanças que ele propôs durante sua campanha: contas fiscais mais altas para grandes corporações e indivíduos ricos. O controle recente do Senado pelos democratas pode dar a ele uma "chance muito maior de sucesso", segundo o Wall Street Journal.

Enquanto isso, o professor e economista Gabriel Zucman da Universidade da Califórnia em Berkeley disse que defende dois impostos.

"Um imposto sobre lucros excedentes, sobre os lucros anormalmente altos obtidos por algumas empresas multinacionais (como a Amazon) durante a pandemia", explicou ele. No ano passado, a gigante do comércio eletrônico registrou o maior lucro em seus 26 anos de história, de acordo com a Reuters , principalmente devido a um aumento nas vendas online e nos negócios de apoio a terceiros.

E um "imposto progressivo sobre a fortuna", como o proposto em 2019 pelos senadores democratas Bernie Sanders e Elizabeth Warren para pessoas com patrimônio líquido acima de US $ 50 milhões.

O consultor do Banco Mundial Jim Brumby concorda com a necessidade de um imposto sobre a riqueza para reduzir a desigualdade e os déficits fiscais em todo o mundo em geral.

"Se já houve um tempo em que os impostos sobre a fortuna pudessem ajudar, pode ser agora", escreveu Brumby no blog do banco.

"Em vez de ver a resolução da iminente crise das finanças públicas como um problema em que 'algo tem que ceder', um imposto sobre a fortuna anualizado fornece uma maneira de atender pelo menos uma parte do problema por meio de 'alguém vai dar'."


Fonte: icij.org

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Carta histórica de Eugênio Aragão a Rodrigo Janot

A Carta Aberta foi enviada com exclusividade ao Blog do Marcelo Auler em 2016 e repercutida em vários outros Blogs e Portais, e como diz o jornalista, tem caráter de documento Histórico.

Dessa forma, ocupando um humilde brilho em meio a uma constelação, esse que vos escreve, também eterniza esse momento da História do Brasil.





Por Eugênio Aragão:


"Praecepta iuris sunt haec: honeste vivere, alterum non laedere, suum cuique tribuere" (Ulpiano)

"Os preceitos do direitos são estes: viver honestamente, não lesar a outrem, dar a cada um o que é seu." (Ulpiano)

"Disse o Senhor Procurador-Geral da República por ocasião da posse da nova presidente do STF, Ministra Carmen Lúcia, que se tem "observado diuturnamente um trabalho desonesto de desconstrução da imagem de investigadores e de juízes. Atos midiáticos buscam ainda conspurcar o trabalho sério e isento desenvolvido nas investigações da Lava Jato".

Visto a carapuça, Doutor Rodrigo Janot. E lhe respondo publicamente, por ser esse o único meio que me resta para defender a honestidade de meu trabalho, posta em dúvida, também publicamente, pelo Senhor, numa ocasião solene, na qual jamais alcançaria o direito de resposta.

O Senhor sabe o quanto tenho sido ostensivamente crítico da forma de agir estrambólica dos agentes do Estado, perceptível, em maior grau, desde a Ação Penal 470, sob a batuta freisleriana do Ministro Joaquim Barbosa.

Aliás, antes de ser procurador-geral, o Senhor compartilhava comigo, em várias conversas pessoais, minha crítica, dirigida, até mesmo, ao Procurador-Geral da República de então, Doutor Gurgel. Lembro-me bem de suas opiniões sobre a falta de noção de oportunidade de Sua Excelência, quando denunciou o Senador Renan Calheiros em plena campanha à presidência do Senado.

Lembro-me, também, de nossa inconformação solidária contra as injustiças perpetradas na Ação Penal 470 contra NOSSO (grifo do original) amigo José Genoíno.

"Não foi uma só vez que o Senhor contou que seus antecessores sabiam da inocência de Genoíno, mas não o retiraram da ação penal porque colocaria em risco o castelo teórico do "Mensalão", como empreitada de uma quadrilha, da qual esse nosso amigo tinha que fazer parte, para completar o número".


Por sinal, conheci José Genoíno em seu apartamento, na Asa Sul, quando o Senhor e eu dirigíamos em parceria a Escola Superior do Ministério Público da União. Àquela ocasião, já era investigado, senão denunciado, por Doutor Antônio Fernando.


Admirei a sua coragem, Doutor Rodrigo, de não se deixar intimidar pelos arroubos midiáticos e jurisdicionais vindas do Excelso Sodalício. Com José Genoíno travamos interessantes debates sobre o futuro do País, sobre a necessidade de construção de um pensamento estratégico com a parceria do ministério público.


Tornou-se, esse político, então, mais do que um parceiro, um amigo, digno de ser recebido reiteradamente em seu lar, para se deliciar com sua arte culinária. De minha parte, como não sou tão bom cozinheiro quanto o Senhor, preferia encontrar, com frequência, Genoíno, com muito gosto e admiração pela pessoa simples e reta que se me revelava cada vez mais, no restaurante árabe do Hotel das Nações, onde ele se hospedava. Era nosso point.


Cá para nós, Doutor Rodrigo Janot, o Senhor jamais poderia se surpreender com meu modo de pensar e de agir, para chamá-lo de desonesto. O Senhor me conhece há alguns anos e até me confere o irônico apelido de "Arengão", por saber que não fujo ao conflito quando pressinto injustiça no ar. Compartilhei esse pressentimento de injustiça com o Senhor, já quando era procurador-geral e eu seu vice, no Tribunal Superior Eleitoral.

Compartilhei meus receios sobre os desastrosos efeitos da Lava Jato sobre a economia do País e sobre a destruição inevitável de setores estratégicos que detinham insubstituível ativo tecnológico para o desenvolvimento do Brasil. Da última vez que o abordei sobre esse assunto, em sua casa, o Senhor desqualificou qualquer esforço para salvar a indústria da construção civil, sugerindo-me que não deveria me meter nisso, porque a Lava Jato era "muito maior" do que nós.


Mas continuemos no flash-back.


Tinha-o como um amigo, companheiro, camarada. Amigo não trai, amigo é crítico sem machucar, amigo é solidário e sempre tem um ouvido para as angústias do outro.


Lutamos juntos, em 2009, para que Lula indicasse Wagner Gonçalves procurador-geral, cada um com seus meios. Os meus eram os contatos sólidos que tinha no governo pelo meu modo de pensar, muito próximo ao projeto nacional que se desenvolvia e que fui conhecendo em profundidade quando coordenador da 5ª Câmara de Coordenação e Revisão da PGR, que cuidava da defesa do patrimônio público.


Ficamos frustrados quando, de última hora, Lula, seguindo conselhos equivocados, decidiu reconduzir o Doutor Antônio Fernando.


Em 2011, tentamos de novo, desta vez com sua candidatura contra Gurgel para PGR.


Na verdade, sabíamos que se tratava apenas de um laboratório de ensaio, pois, com o clamor público induzido pelos arroubos da mídia e os chiliques televisivos do relator da Ação Penal 470, poucas seriam as chances de, agora Dilma, deixar de indicar o Doutor Gurgel, candidato de Antônio Fernando, ao cargo de procurador-geral.

Ainda assim, levei a missão a sério. Fui atrás de meus contatos no Planalto, defendi seu nome com todo meu ardor e consegui, até, convencer alguns, mas não suficientes para virar o jogo.


Mas, vamos em frente.


Em 2013, quando o Senhor se encontrava meio que no ostracismo funcional porque ousara concorrer com o Doutor Gurgel, disse-me que voltaria a concorrer para PGR e, desta vez, para valer.


Era, eu, Corregedor-Geral do MPF e, com muito cuidado, me meti na empreitada. Procurei o Doutor Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, meu amigo-irmão há quase trinta anos, e pedi seu apoio a sua causa.


Procurei conhecidos do PT em São Paulo, conversei com ministros do STF com quem tinha contatos pessoais. Enquanto isso, o Senhor foi fazendo sua campanha Brasil afora, contando com o apoio de um grupo de procuradores e procuradoras que, diga-se de passagem, na disputa com Gurgel tinham ficado, em sua maioria, com ele.


Incluía, até mesmo, o pai da importação xinguelingue ( Gíria paulista: produto barato que vem da China, geralmente de baixíssima qualidade) da teoria do domínio do fato, elaborado por Claus Roxin no seu original, mas completamente deturpada na Pindorama, para se transmutar em teoria de responsabilidade penal objetiva.


Achava essa mistura de apoiadores um tanto estranha, pois eu, que fazia o trabalho de viabilizar externamente seu nome, nada tinha em comum com essa turma em termos de visão sobre o ministério público.


Como o Senhor sabe, no início de 2012, publiquei, numa obra em "homenagem" ao então Vice-Presidente da República, Michel Temer, um artigo extremamente polêmico sobre as mutações disfuncionais por que o ministério público vinha passando.

Esse artigo, reproduzido no Congresso em Foco, com o título "Ministério Público na Encruzilhada: Parceiro entre Sociedade e Estado ou Adversário implacável da Governabilidade?", quando tornado público, foi alvo de síncopes corporativas na rede de discussão @Membros.


Faltaram querer me linchar, porque nossa casa não é democrática. Ela se rege por um princípio de omertà muito próprio das sociedades secretas. Mas não me deixei intimidar.


Depois, ainda em 2013, publiquei outro artigo, em crítica feroz ao movimento corporativo-rueiro contra a PEC 37, também no Congresso em Foco, com o título "Derrota da PEC 37: a apropriação corporativa dos movimentos de rua no Brasil".


(N.R. A PEC 37, derrotada na Câmara em junho de 2013, determinava que o poder de investigação criminal seria exclusivo das polícias federal e civis, retirando esta atribuição de alguns órgãos e, sobretudo, do Ministério Público (MP).


Sua turma de apoio me qualificou de insano, por escrever isso em plena campanha eleitoral do Senhor. Só que se esqueceram que meu compromisso nunca foi com eles e com o esforço corporativo de indicar o Procurador-Geral da República por lista tríplice. Sempre achei esse método de escolha do chefe da instituição um grande equívoco dos governos Lula e Dilma.


Meu compromisso era com sua indicação para o cargo, porque acreditava na sua liderança na casa, para mudar a cultura do risco exibicionista de muitos colegas, que afetava enormemente a qualidade de governança do País.


No seu caso, pensava, a coincidência de poder ser o mais votado pela corporação e de ter a qualidade da sensibilidade para com a política extra-institucional, era conveniente, até porque a seu lado, poderia colaborar para manter um ambiente de parceria com o governo e os atores políticos.

Não foi por outro motivo que, quando me deu a opção, preferi ocupar a Vice-Procuradoria-Geral Eleitoral a ocupar a Vice-Procuradoria-Geral da República que, a meu ver, tinha que ser destinada à Doutora Ela Wiecko Volkmer de Castilho, por deter, também, expressiva liderança na casa e contar com boa articulação com o movimento das mulheres. Este foi um conselho meu que o Senhor prontamente atendeu, ainda antes de ser escolhido.


Naqueles dias, a escolha da Presidenta da República para o cargo de procurador-geral estava entre o Senhor e a Doutora Ela, pendendo mais para a segunda, por ser mulher e ter tido contato pessoal com a Presidenta, que a admirava e continua admirando muito.


Ademais, Doutora Ela contava com o apoio do Advogado-Geral da União, Doutor Luís Inácio Adams. Brigando pelo Senhor estávamos nós, atuando sobre o então Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo e o amigo Luiz Carlos Sigmaringa Seixas.


Quando ouvimos boatos de que a mensagem ao Senado, com a indicação da Doutora Ela, estava já na Casa Civil para ser assinada, imediatamente agi, procurando o Ministro Ricardo Lewandowski, que, após recebê-lo, contatou a Presidenta para recomendar seu nome.


No dia em que o Senhor foi chamado para conversar com a Presidenta, fui consultado pelo Ministro da Justiça e pelo Advogado-Geral da União, pedindo que confirmasse, ou não, que seu nome era o melhor. Confirmei, em ambos os contatos telefônicos.


Na verdade, para se tornar Procurador-Geral da República, o Senhor teve que fazer alianças contraditórias, já que não aceitaria ser nomeado fora do método de escolha corporativista.


Acendeu velas para dois demônios que não tinham qualquer afinidade entre si: a corporação e eu.

Da primeira precisou de suporte para receber seus estrondosos 800 e tantos votos e, de mim, para se viabilizar num mundo em que o Senhor era um estranho. Diante do meu receio de que essa química poderia não funcionar, o Senhor me acalmou, dizendo que nós nos consultaríamos em tudo, inclusive no que se tinha a fazer na execução do julgado da Ação Penal 470, que, a essa altura, já estava prestes a transitar.


O dia de sua posse foi, para mim, um momento de vitória. Não uma vitória pessoal, mas uma vitória do Estado Democrático de Direito que, agora, teria um chefe do ministério público enérgico e conhecedor de todas as mazelas da instituição. Sim, tinha-o como o colega no MPF que melhor conhecia a política interna, não só pelos cargos que ocupara, mas sobretudo pelo seu jeitão mineiro e bonachão de conversar com todos, sem deixar de ter lado e ser direto, sincero, às vezes até demais.


Seu déficit em conhecimento do ambiente externo seria suprido com o exercício do cargo e poderia, eu, se chamado, auxiliá-lo, assim como Wagner Gonçalves ou Claudio Fonteles.


Meu susto se deu já no primeiro mês de seu exercício como procurador-geral. Pediu, sem qualquer explicação ou conversa prévia com o parceiro de que tanto precisou para chegar lá, a prisão de José Genoíno. E isso poucos meses depois de ele ter estado com o Senhor como amigo in pectore.


Eu não tenho medo de assumir que participei desses contatos. Sempre afirmei publicamente a extrema injustiça do processo do "Mensalão" no que toca aos atores políticos do PT. Sempre deixei claro para o Senhor e para o Ministro Joaquim Barbosa que não aceitava esse método de exposição de investigados e réus e da adoção de uma transmutação jabuticaba da teoria do domínio do fato.


Defendi José Genoíno sempre, porque, para mim, não tem essa de abrir seu coração (e no seu caso, a sua casa) a um amigo e depois tratá-lo como um fora da lei, sabendo-o inocente.


Tentei superar o choque, mas confesso que nunca engoli essa iniciativa do Senhor.

Acaso achasse necessário fazê-lo, deveria ter buscado convencer as pessoas às quais, antes, expressou posição oposta. E, depois, como José Genoino foi reiteradamente comensal em sua casa, nada custava, em último caso, dar-se por suspeito e transferir a tarefa do pedido a outro colega menos vinculado afetivamente, não acha?


Como nosso projeto para o País era maior do que minha dor pela injustiça, busquei assimilar a punhalada e seguir em frente, sabendo que, para terceiros, o Senhor se referia a mim como pessoa que não podia ser envolvida nesse caso, por não ter isenção.


E não seria mesmo envolvido. Nunca quis herdar a condução da Ação Penal 470, para mim viciada ab ovo, e nunca sonhei com seu cargo. Sempre fui de uma lealdade canina para com o Senhor e insistia em convencer, a mim mesmo, que sua atitude foi por imposição das circunstâncias. Uma situação de "duress", como diriam os juristas anglo-saxônicos.


Mas chegou o ano 2014 e, com ele, a operação Lava Jato e a campanha eleitoral. Dois enormes desafios. Enquanto, por lealdade e subordinação, nenhuma posição processual relevante era deixada de lhe ser comunicada no âmbito do ministério público eleitoral, no que diz respeito à Lava Jato nada me diziam, nem era consultado.


O Senhor preferiu formar uma dupla com seu chefe de gabinete, Eduardo Pelella, que tudo sabia e em tudo se metia e, por isso, chamado carinhosamente de "Posto Ipiranga". Era seu direito e, também por isso, jamais o questionei a respeito, ainda que me lembrasse das conversas ante-officium de que sempre nos consultaríamos sobre o que era estratégico para a casa.


Passei a perceber, aos poucos, que minha distância, sediado que estava fora do prédio, no Tribunal Superior Eleitoral, era conveniente para o Senhor e para seu grupo que tomava todas as decisões no tocante à guerra política que se avizinhava.

Não quis, contudo, constrangê-lo. Tinha uma excelente equipe no TSE. Fazia um time de primeira com os colegas Luiz Carlos Santos Gonçalves, João Heliofar, Ana Paula Mantovani Siqueira e Ângelo Goulart e o apoio inestimável de Roberto Alcântara, como chefe de gabinete. Não faltavam problemas a serem resolvidos numa das campanhas mais agressivas da história política do Brasil. Entendi que meu papel era garantir que ninguém fosse crucificado perante o eleitorado com ajuda do ministério público e, daí, resolvemos, de comum acordo, que minha atuação seria de intervenção mínima, afim de garantir o princípio da par conditio candidatorum.


Quando alguma posição a ser tomada era controversa, sempre a submeti ao Senhor e lhe pedi reiteradamente que tivesse mais presença nesse cenário. Fiquei plantado em Brasília o tempo todo, na posição de bombeiro, evitando que o fogo da campanha chegasse ao judiciário e incendiasse a corte e o MPE. As estatísticas são claras. Não houve nenhum ponto fora da curva no tratamento dos contendentes.


Diferentemente do que o Senhor me afirmou, nunca tive briga pessoal com o então vice-presidente do TSE. Minha postura de rejeição de atitudes que não dignificavam a magistratura era institucional.


E, agora, que Sua Excelência vem publicamente admoestá-lo na condução das investigações da Lava Jato, imagino, suas duras reações na mídia também não revelam um conflito pessoal, mas, sim, institucional. Estou certo? Portanto, nisso estamos no mesmo barco, ainda que por razões diferentes.


Passada a eleição, abrindo-se o "terceiro turno", com o processo de prestação de contas da Presidenta Dilma Rousseff que não queria e continua não querendo transitar em julgado apesar de aprovado à unanimidade pelo TSE e com as ações de investigação judicial e de impugnação de mandato eleitoral manejadas pelo PSDB, comecei, pela primeira vez, a sentir falta de apoio.


Debitava essa circunstância, contudo, à crise da Lava Jato que o Senhor tinha que dominar. As vezes que fui chamado a assinar documentos dessas investigações, em sua ausência, o fiz quase cegamente. Lembrava-me da frase do querido Ministro Marco Aurélio de Mello, "cauda não abana cachorro".


Só não aceitei assinar o parecer do habeas corpus impetrado em favor de Marcelo Odebrecht com as terríveis adjetivações da redação de sua equipe. E o avisei disso. Não tolero adjetivações de qualquer espécie na atuação ministerial contra pessoas sujeitas à jurisdição penal.

Não me acho mais santo do que ninguém para jogar pedra em quem quer que seja. Meu trabalho persecutório se resume à subsunção de fatos à hipótese legal e não à desqualificação de Fulano ou Beltrano, que estão passando por uma provação do destino pelo qual não tive que passar e, por conseguinte, não estou em condições de julgar espiritualmente.


Faço um esforço de me colocar mentalmente no lugar deles, para tentar entender melhor sua conduta e especular sobre como eu teria agido. Talvez nem sempre mais virtuosamente e algumas vezes, quiçá, mais viciadamente.


Investigados e réus não são troféus a serem expostos e não são “meliantes” a serem conduzidos pelas ruas da vila "de baraço e pregão" (apud Livro V das Ordenações Filipinas). São cidadãos, com defeitos e qualidades, que erraram ao ultrapassar os limites do permissivo legal. E nem por isso deixo de respeitá-los.


Fui surpreendido, em março deste ano, com o honroso convite da senhora Presidenta democraticamente eleita pelos brasileiros, Dilma Vana Rousseff, para ocupar o cargo de Ministro de Estado da Justiça.


Imagino que o Senhor não ficou muito feliz e até recomendou à Doutora Ela Wiecko a não comparecer a minha posse. Aliás, não colocou nenhum esquema do cerimonial de seu gabinete para apoiar os colegas que quisessem participar do ato. Os poucos (e sinceros amigos) que vieram tiveram que se misturar à multidão.


A esta altura, nosso contato já era parco e não tinha porque fazer "mimimi" para exigir mais sua atenção. Já estava sentindo que nenhum de nossos compromissos anteriores a sua posse como procurador-geral estavam mais valendo.


O Senhor estava só monologando com sua equipe de inquisidores ministeriais ferozes. Essa é a razão, meu caro amigo Rodrigo Janot, porque não mais o procurei como ministro de forma rotineira. Estive com o Senhor duas vezes apenas, para tratar de assuntos de interesse interinstitucional.

E quando voltei ao Ministério Público Federal, Doutor Rodrigo Janot, não quis mais fazer parte de sua equipe, seja atuando no STF, seja como coordenador de Câmara, como me convidou. Prontamente rejeitei esses convites, porque não tenho afinidade nenhuma com o que está fazendo à frente da Lava Jato e mesmo dentro da instituição, beneficiando um grupo de colaboradores em detrimento da grande maioria de colegas e rezando pela cartilha corporativista ao garantir a universalidade do auxilio moradia concedida por decisão liminar precária.


Na crítica à Lava Jato, entretanto, tenho sido franco e assumido, com risco pessoal de rejeição interna e externa, posições públicas claras contra métodos de extração de informação utilizados, contra vazamentos ilegais de informações e gravações, principalmente em momentos extremamente sensíveis para a sobrevida do governo do qual eu fazia parte, contra o abuso da coerção processual pelo juiz Sérgio Moro, contra o uso da mídia para exposição de pessoas e contra o populismo da campanha pelas 10 medidas, muitas à margem da constituição, propostas por um grupo de procuradores midiáticos que as transformaram, sem qualquer necessidade de forma, em "iniciativa popular".


Nossa instituição exibe-se, assim, sob a sua liderança, surfando na crise para adquirir musculatura, mesmo que isso custe caro ao Brasil e aos brasileiros.


Vamos falar sobre honestidade, Senhor Procurador-Geral da República.


A palavra consta do brocardo citado no título desta carta aberta.


O Senhor não concorda e não precisa mais concordar com minhas posições críticas à atuação do MPF.


Nem tem necessidade de uma aproximação dialógica. Já não lhe sirvo para mais nada quando se inicia o último ano de seu mandato.


Mas, depois de tudo que lhe disse aqui para refrescar a memória, o Senhor pode até me acusar de sincericídio, mas não mais, pois a honestidade (honestitas), que vem da raiz romana honor, honoris, esta, meu pai, do Sertão do Pajeú, me ensinou a ter desde pequeno. Nunca me omiti e não me omitirei quando minha cidadania exige ação.

Procuro viver com honra e, por isto, honestamente, educando seis filhos a comer em pratos Duralex, usando talheres Tramontina e bebendo em copo de requeijão, para serem brasileiros honrados, dando valor à vida simples.


Diferentemente do Senhor, não fiquei calado diante das diatribes políticas do Senhor Eduardo Cunha e de seus ex-asseclas, que assaltaram a democracia, expropriando o voto de 54 milhões de brasileiros, pisoteando-os com seus sapatinhos de couro alemão importado. Não fui eu que assisti uma Presidenta inocente ser enxovalhada publicamente como criminosa, não porque cometeu qualquer crime, mas pelo que representa de avanço social e, também, por ser mulher.


O Senhor ficou silente, apesar de tudo que conversamos antes de ser chamado a ser PGR. E ficou aceitando a pilha da turma que incendiava o País com uma investigação de coleta de prova de controvertido valor.


Eu sou o que sempre fui, desde menino que militou no Movimento Revolucionário 8 de Outubro. E o Senhor? Se o Senhor era o que está sendo hoje, sinto-me lesado na minha boa fé (alterum non laedere, como fica?). Se não era, o que aconteceu?


"A Lava Jato é maior que nós"?


Esta não pode ser sua desculpa. Tamanho, Senhor Procurador-Geral da República, é muito relativo. A Lava Jato pode ser enorme para quem é pequeno, mas não é para o Senhor, como espero conhecê-lo. Nem pode ser para o seu cargo, que lhe dá a responsabilidade de ser o defensor maior do regime democrático (art. 127 da CF) e, devo-lhe dizer, senti falta de sua atuação questionando a aberta sabotagem à democracia. Por isso o comparei a Pilatos. Não foi para ofendê-lo, mas porque preferiu, como ele, lavar as mãos.

Mas fico por aqui. Enquanto trabalhei consigo, dei-lhe o que lhe era de direito e o que me era de dever: lealdade, subordinação e confiança (suum cuique tribuere, não é?). E, a mim, o Senhor parece também ter dado o que entende ser meu: a acusação de agir desonestamente. Não fico mais triste. A vida nos ensina a aceitar a dor como ensinamento. Mas isso lhe prometo: não vou calar minha crítica e, depois de tudo o que o Senhor conhece de mim, durma com essa.

Um abraço sincero daquele que esteve anos a fio a seu lado, acreditando consigo num projeto de um Brasil inclusivo, desenvolvido, economicamente forte e respeitado no seio das nações, com o ministério público como ativo parceiro nessa empreitada.

MAIS QUE UM JOGO – O lugar do posicionamento político no futebol

Debate-se muito se clubes de futebol e suas torcidas carregam ou não pensamento político e ideológico. Há casos em que as atitudes das torcidas são refletidas na visão de mundo de dirigentes das instituições. Em 2017, O presidente da Lazio, tradicional clube italiano, convocou torcedores a visitarem o local do antigo campo de concentração de Auschwitz, como medida educativa após a Irriducibili, torcida mais famosa da Lazio e conhecida por suas afiliações nazi-fascistas, colar adesivos com uma montagem de Anne Frank (jovem de origem judia assassinada na 2ª Guerra Mundial) vestida com camiseta da Roma, em uma tentativa de "provocar" os rivais. A tentativa do presidente Claudio Lotito de educar os torcedores terminou sendo um pouco ingênua, já que essa parcela dos torcedores laziale é consciente dos horrores do Holocausto e leva o ódio ao povo judeu e a minorias para seus cantos e faixas nas arquibancadas.

Adesivo de Anne Frank com camiseta da Roma. | Foto: Reprodução


Em outros casos, há times de bairro como o espanhol Rayo Vallecano, que tem sua torcida formada por moradores do bairro de Vallecas, em Madrid, um barrio obrero, ou seja, de trabalhadores. Uma localidade que viveu a Guerra Civil Espanhola quando tropas do então presidente italiano Benito Mussolini, em apoio ao general Francisco Franco, atacou o bairro, o qual tinha forte atuação da A Confederação Nacional do Trabalho (CNT) (em espanhol, Confederación Nacional del Trabajo) e da Federação Anarquista Ibérica. Este contexto histórico, em que sindicatos e organizações trabalhistas espanholas são de esquerda – e combativos, é que marcam a personalidade do bairro, do seu povo e também da torcida do Rayo – clube que recentemente expulsou o atacante ucraniano Roman Zozulya por desconfiança que o mesmo teria ligações com organizações da extrema-direita em seu país.

Outro exemplo de clube com posicionamento político bem definido é o alemão St. Pauli, hoje amplamente reconhecido como um dos times mais à esquerda no planeta. Esse discurso teve início na década de 1980, com a aproximação dos moradores dos subúrbios de Hamburgo com o clube: estas pessoas eram ligadas às ocupações por moradia existentes na cidade e, inclusive, diz-se que nestes locais e momento histórico surgiu a prática da tática conhecida como black block. Esses moradores das ocupações nos subúrbios começaram a compor as arquibancadas do clube e levar novidades no modo de torcer. Hoje, o St. Pauli abriga refugiados, já teve o primeiro presidente declaradamente homossexual de um clube de futebol e se posiciona amplamente contra a homofobia, o racismo e a xenofobia, coisa que poucas outras instituições do meio do futebol fazem.

Faixa na torcida do St. Pauli com os dizeres: “Vamos lutar contra o racismo e o ‘orgulho branco’. | Foto: Reprodução


Fica claro que a maioria dos clubes não se posiciona politicamente, mas as torcidas são compostas por pessoas com os mais variados pensamentos, sendo difícil taxar ideologicamente os grupos que compõem um clube. Ainda que alguns países, como Itália, Espanha e Alemanha, tenham tradição em clubes e torcidas com lados bem marcados, a falta de um posicionamento por parte das instituições faz com que várias demandas populares fiquem do lado de fora dos estádios e arenas. A falta de políticas para ingressos a preços acessíveis, bem como o escanteamento das mulheres dentro do futebol como um todo, são exemplos de temas que deveriam ser trabalhados por todos os clubes, independentemente de posicionamentos políticos.

Movimento Grêmio Antifascista

Fonte: Repórter Popular

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

APEOESP pede justiça para Luis Nassif e Jornal GGN

"A perseguição é um atentado contra a democracia. Ela abre um precedente perigosíssimo para que a justiça seja utilizada para calar jornalistas que buscam revelar os crimes cometidos por instâncias de poder", diz nota da entidade

Por Jornal GGN



"Jornal GGN – O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) manifestou apoio ao Jornal GGN e jornalista Luis Nassif contra a perseguição  do judiciário, com o intuito de sufocar as atividades do portal "por realizar críticas ao poder judiciário, exercendo a liberdade de imprensa e de expressão assegurada na Constituição Federal".

Em nota, a presidente da organização, Maria Izabel Azevedo Noronha destaca que a "perseguição – conhecida internacionalmente como lawfare, que é o uso do judiciário para atacar politicamente uma pessoa – é um atentado contra a democracia. Ela abre um precedente perigosíssimo para que a justiça seja utilizada para calar jornalistas que buscam revelar os crimes cometidos por instâncias de poder, exatamente como ocorreu durante a ditadura militar".

"No caso de Luis Nassif, juízes de primeira instância vêm sistematicamente impondo pesadas multas de pagamento imediato e o bloqueio de sua conta bancária, fazendo com que não possa ter acesso sequer aos valores de sua aposentadoria. Trata-se do uso escancarado do poder da justiça para calar alguém que se propôs a revelar ao público uma série de irregularidades e corrupção no meio judiciário brasileiro", continua o texto.

A entidade também pede a reparação das ações contra o GGN e Nassif e afirma que todas as "representações sociais devem se manifestar contra esse absurdo".

"Exigimos, por outro lado, que as instâncias superiores da justiça brasileira façam imediatamente cessar a perseguição e devolvam ao jornalista Luis Nassif todos os seus direitos e os valores descontados, bem como que realizem a investigação de suas denúncias e a punição dos culpados".




Fonte: Jornal GGN




segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Vacina, só desenhando para explicar melhor

Tem muita gente dizendo que não tomará vacina contra a covid-19, pasmem, inclusive o inominável chefe do Executivo.

Segue aqui uma ótima explicação da bióloga, microbiologista e divulgadora científica Natalia Pasternak.

Tudo de bom para dar uma invertida no "Tiozão do zap" do grupo da família e acima de tudo não dar uma de negacionista e se vacinar quando possível. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Democracia ao estilo Dorian Gray

 "O RETRATO DE BOLSODORIAN GRAY"






















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Por Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino 


O que acontecesse se a Democracia[1] fosse semelhante ao personagem de Oscar Wilde na obra "O Retrato de Dorian Gray"[2]? A Democracia, hoje, reitera o seus princípios e suas bases nas quais foi criada no período helênico e moderno ou conseguiu subverter suas principais características e se torna tão somente governo de poucos, ou seja, passa do governo de todos outros modelos como plutocracia? Os atuais valores considerados instrumentais se tornaram fundamentais e essa é uma imagem que nossa Democracia tem ao estilo de Dorian Gray.


Quando a Democracia não consegue reforçar as questões de integração entre as pessoas, reconhecimento das diferenças, de se transfigurar graças aos novos estilos de vida, de se pensar, de se agir e de se conviver pela tolerância, parece – especialmente no século XXI – que se optou pelas posturas egoístas e o projeto Sociedade é apenas uma fachada a fim de afirmar: é possível a vida conjunta.


Na medida em que o tempo passa e a Democracia evita o seu olhar para aquela pintura na qual se imortalizou, essa deixa de ver o que é, ou seja, deixa de enxergar tudo o que o desmedido uso de sua liberdade permitiu: ódio, miséria, entorpecimento do corpo; a pura manifestação da decadência. Nada menos glorioso que uma Democracia nada virtuosa e incapaz de suscitar a prática de hábitos que corroborem o desvelo de nossa humanidade e de sua intransigente defesa, desde o "cidadão de bem" ao mais pérfido canalha.


Por todos esses motivos, o resgate de uma Democracia mais direta e participativa deve se amoldar a uma questão de responsabilidade cidadã. Talvez, nesse ponto, esteja a nossa soproshyné[3] coletiva. Ao contrário do que ocorreu com a elite intelectual europeia do século XIX, quando se retirou a responsabilidade do cidadão por esse ser inepto a tomar suas próprias decisões, devemos recobrar todas as responsabilidades e trabalhar em conjunto ao modelo representativo.


Nós, cidadãos, não podemos abdicar da nossa cota de responsabilidade para construção de espaços comuns de maior debate, de maior proximidade, de tomadas de decisões coletivas que se apresentam no nosso cotidiano. Talvez seja necessário elaborar um modelo híbrido – como já se observou, por exemplo, em várias situações da nossa cultura[4] – para se manter a comunicação entre os que detém o poder formal – conquistados pela via do voto -, mas, também, de unir essas obrigações com as dos cidadãos para a fim de se representar interesses exclusivamente republicanos.


Nesse caso, requer-se, ainda, um conceito mais amplo de Cidadania, bem como de outros instrumentos que sejam colocados à disposição das pessoas para exercer esse direito, pois, caso contrário, o que se enxerga são os absurdos – semânticos e governamentais – que se identifica tanto no atual governo como nas palavras e atitudes das pessoas que elegeram o Poder Legislativo e Executivo.


A população brasileira não conseguiu enxergar que as respostas fáceis, imediatas, não existem, nem, tampouco, as transformações abruptas desejadas quando estão em perigo valores fundamentais como liberdade, Igualdade Fraternidade, Justiça, Ética, Solidariedade entre outros. Esses são os principais aspectos de uma Democracia entendida tanto no período helênico quanto no período moderno e são essas condições que nós não respeitamos atualmente.


Nessa linha de pensamento a simples regra quantitativa da Democracia não significa que essa esteja acompanhada da sua condição qualitativa, ou seja, não é porque a maioria decidiu de uma forma que esse fato signifique a melhor resposta para a consolidação de uma sociedade pacífica que venha incluir, que venha respeitar as pessoas em todas as suas diferenças.


Na ausência desses pressupostos, e lembrando Darcy Ribeiro[5], a Democracia – representada por todos nós – parece o retrato de Dorian Gray na sua forma de caída, algo semelhante a nossa classe média[6] ranzinza, medíocre, azeda que tem como único exclusivo interesse alcançar os padrões de riqueza material daqueles 1% (um por centro) da população mundial detém.


Se formos pensar e conviver sob os fundamentos da Democracia, precisamos olhar outros horizontes, precisamos continuar a se reconhecer em cada pessoa, em cada humanidade escondida no Outro, pois, caso contrário, a Democracia verá apenas a imagem de sua própria decadência na exata expressão de Jacqués Ranciére[7]: a Democracia se enxerga apenas como puro ódio do Outro contra o Outro.


Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino é doutor e mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, professor universitário – Graduação e Mestrado – em Direito e Pesquisador no Complexo de Ensino Superior Meridional – IMED.


[1] Entende-se Democracia como "[…] um conjunto de regras (primárias ou fundamentais) que estabelecem quem está autorizado a tomar as decisões coletivas e com quais procedimentos […]". BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. 9. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 30/31.

[2] WILDE, Oscar. The collected works. London: Wordsworth, 2007.

[3] Vernant destaca que o caráter mediador da sophrosyne "[…] dá à areté grega um aspecto mais ou menos 'burguês': é a classe média que poderá desempenhar na cidade o papel moderador, estabelecendo um equilíbrio entre os extremos dos dois bordos: a minoria dos ricos que querem tudo conservar, a multidão das pessoas pobres que querem tudo obter". VERNANT, Jean-Pierre. A origem do pensamento grego. 17. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2008, p. 89/90.

[4] "[…] entendo por hibridação processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas. […]. A construção lingüística […] e a social […] do conceito de hibridação serviu para sair dos discursos biológicos e essencialistas da identidade, da autenticidade e da pureza cultural. Contribuem, de outro lado, para identificar e explicar múltiplas alianças fecundas: por exemplo, o imaginário pré-colombiano com o novo-hispano dos colonizadores e depois com as indústrias culturais […], a estética popular com a dos turistas […], as culturas étnicas nacionais com as metrópoles […] e com as instituições globais […]. os poucos fragmentos escritos de uma história das hibridações puseram em evidência a produtividade e o poder inovador de muitas misturas interculturais". CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. 4. ed. 3. reimp. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008, p. XIX-XXII.

[5] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SX5O-IAyO38. Acesso em: 19 de fev. 2019.

[6] "A classe média real, por sua vez, se vê como "elite", contribuindo para um autoengano fatal e de consequências terríveis para o destino da sociedade brasileira e da própria massa da classe média". SOUZA, Jessé. A classe média no espelho: Sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade. [recurso eletrônico Kindle]. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2018, pos.167-170.

[7] "[…] A vida democrática torna-se a vida apolítica do consumidor indiferente de mercadorias, direitos das minorias, indústria cultural e bebês produzidos em laboratório. Ela se identifica pura e simplesmente com a 'sociedade moderna', que ela transforma ao mesmo tempo em uma configuração antropológica homogênea". RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 43.


Fonte: Justificando