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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Palanque no altar

Enquanto escrevo essas linhas, simultaneamente ouço o debate dos candidatos à prefeitura de São Paulo pela TVT.

Seguindo a linha do seu atual padrinho eleitoral, Celso Russomanno não compareceu assim como o líder nas pesquisas Bruno Covas.

A verdadeira razão dessas linhas é a percepção deprimente, minha em particular, da situação das pessoas que estão em certas igrejas onde a pessoa que assume o altar pronuncia-se: "O meu candidato é o fulano".

Assim fazem por conta da Lei Eleitoral, e então é passado o recado. "Se o meu líder espiritual vota em fulano eu também voto!"

Tem um fulano desses que é ligado ao partido que é ligado a uma igreja, acho que todos sabem quem é. Ele está disputando a prefeitura de São Paulo pela terceira vez recebendo esse apoio.

Falo com propriedade, afinal estive ali por 25 anos. Afirmo que é deprimente porque sei muito bem que é assim que funciona a dinâmica de conquista de votos dentro da igreja, assim como outras diversas técnicas.


Quando Russomanno perguntado por repórteres, omite apoio da igreja ligada ao seu partido, o Republicanos, deixa seus membros em estado deprimente e vexatório. Eles o reconhecem como potencial candidato a prefeito enquanto ele não os reconhece.

A pergunta que fica é; o por que, e para que esconder essa ligação?

sábado, 29 de agosto de 2020

Patrícia Lélis disseca Everaldo e Feliciano

Patrícia Lélis em seu Twitter @lelispatricia traz detalhes de seu pesadelo quando sobreviveu entre lobos.

No dia da prisão do presidente nacional do PSC, pastor Everaldo, sob acusação de corrupção e lavagem de dinheiro, a antiga correligionária escreveu parte do que viveu ali. 

Quem acompanhou e acompanha essa violência, que poderia até terminar em feminicídio, sabe que tem ainda muitos outros capítulos; O vídeo desmentindo, o cárcere, retenção de celular, processo...

Antes dessa prisão, por entre outros desvios, na Saúde em plena pandemia, poucos acreditariam.


Segue o fio


§  §  §  §  §  §  §  §  §  §  §  §  §


Já que finalmente a justiça bateu na porta do Pastor Everaldo eu vim esclarecer algumas coisas que eu vivenciei dentro do PSC. Toda a perseguição do PSC comigo tem um motivo: Eu peguei arquivos do PSC que comprovam lavagem de dinheiro nas igrejas do Everaldo/Feliciano.


Essa foto foi tirada dia 20 de maio de 2016, após meses sendo convidada a me filiar ao PSC e sempre negando, eu resolvi aceitar (quem nunca faz merda na vida, não é mesmo?!). Nessa época eu ainda estava cursando jornalismo e era estagiária.

Como vcs sabem eu nasci e cresci dentro de igreja evangélica (bem tóxico, inclusive) e o PSC não tinha muita representatividade feminina, já que a Sara Winter não era nada querida entre as pessoas por não se encaixar nos padrões e nunca realmente ter cursado uma universidade...


Na época eu ajudava com assuntos relacionados a política para mulheres e foi quando começou a inflar o golpe contra Dilma. Mas aí veio o meu trabalho principal: A CPI da UNE, e o problema começou quando o Feliciano praticamente me obrigou a ALTERAR relatórios da UNE.


A panelinha de gente unida para incriminar os oponentes sempre foi muito bem formada e organizada. Na época da CPI da UNE quando o Feliciano me entregou os relatórios pedindo para alterar com a intenção de incriminar a UNE eu não quis fazer... e aí começaram meus problemas...

O Feliciano estava MUITO decidido a prejudicar a UNE e principalmente a Carina Vitral, a razão eu nunca consegui entender muito bem e bom, eu também não poderia questionar muito e se questionasse como fiz, a primeira reposta que tive do próprio Feliciano foi: "Faça teu trabalho".

Agora sobre o Feliciano: Logicamente eu já me sentia desconfortável perto dele, mas sempre achava que era coisa da minha cabeça, na época eu pensava: "Como um pastor casado, com a idade pra ser meu pai poderia estar tentando ter algo sexual comigo?"

Até que um dia, a Denise Assunção (secretaria do PSC) sentou comigo para tomar um café e na conversa me perguntou o que eu achava do Feliciano e eu fiquei tipo: "Oi?", depois eu entendi que ela era a pessoa que chegava nas mulheres a pedido do Feliciano...

Depois dessa conversa eu passei a evitar ficar apenas com ele, fosse no gabinete, em alguma sala do PSC... e ele percebeu que eu estava o evitando.

Uma semana após a audiência sobre a CPI da UNE, Feliciano me avisou que teria uma reunião no apartamento funcional dele (asa norte), o que não era nada estranho e diversas reuniões aconteciam lá, principalmente reuniões estratégicas em que ele era o responsável pela pauta.

Segundo ele, por segurança e privacidade de conversas e organização de pautas, ele preferia fazer as reuniões no apartamento funcional. Eu fui acreditando que seria como qualquer outra reunião, mas não foi. Ele abriu a porta e estava apenas ele no apartamento.

Mandei msg no grupo do partido perguntando aonde todos estavam e apenas uma pessoa me respondeu dizendo que não sabia da reunião... na hora questionei o Feliciano e ele disse que a reunião tinha mudado de dia mas que ele queria conversar comigo e me pediu para sentar...

O sofá na dela dele era em formato de "L", sentei em uma ponta e ele na outra, falamos sobre a UNE por alguns minutos e após ele começou a me perguntar se eu tinha reparado que ele estava tentando se aproximar de mim, demonstrando interesse... e aí começou a briga.

Eu fiquei brava com a situação e comecei a enfrentá-lo dizendo que então todos os boatos sobre ele com outras mulheres (e mulheres menores de 18) era verdade, na hora eu tentei abrir a porta e sair mas estava trancada e foi quando conheci o lado violento do Feliciano.

Quando ele entendeu que eu iria sair dali e contar ao Everaldo o que aconteceu. Ele ficou bravo e me agrediu, pegou uma faca na cozinha, me pediu para tirar a roupa, eu joguei um vaso de flores nele que quebrou ele me puxou para o quarto e me chutou, bateu e abusou.

Depois de mais de 2 horas ele se acalmou, beijou a minha testa e me disse "Vá e não peques mais", naquele momento eu já estava fora de mim. 

Sem saber o que fazer, eu não me lembro exatamente de nada do momento em que vesti minha roupa e desci para o meu carro.

Eu não sei por quantas horas eu fiquei sentada dentro do carro, até hoje os detalhes para mim são difíceis. Eu me lembro de receber uma ligação do pastor Everaldo pedindo algo que ele não estava achando e aí eu disse que precisava conversa com ele, então eu dirigi até a Câmara.

Isso era dia de semana, já estava no fim da tarde... eu sentei na porta do pastor Everaldo e o esperei. Eu estava machucada e a própria Denise me perguntou o que aconteceu, e eu disse "o Feliciano..." e então ela entrou na sala do Everaldo e ficou lá por horas

Após HORAS de espera o Everaldo abriu a porta para mim, sentei, ele me deu água e antes mesmo que eu pudesse falar ele já disse "eu falei com o Feliciano, mas vc precisa entender que isso não é nada sério e você anda muito bonita por aí", eu fiquei ainda mais em choque.

Eu disse que aquilo não era certo, que não era culpa minha, deixei claro que buscaria ajuda. Então o Everaldo me OFERECEU dinheiro sem a menor vergonha, ele me perguntou quanto eu queria para ir para casa, dormir e voltar no dia seguinte ao trabalho. Eu estava em choque!

Eu não sabia o que fazer, estava com medo de contar aos meus pais (grande erro, quando eles descobriram foram eles quem denunciaram, confiem nos pais de vcs), eu estava com medo. Fui pra casa não sei como, não sei como consegui dirigir, no outro dia eu não conseguia ir trabalhar.

Após eu ter falado com o Everaldo o Feliciano me mandou essa mensagem. E essa foi a última mensagem que eu respondi a ele. Como eu ainda consegui responder? Não sei. 

Eu não sabia mais quem eu era o que estava acontecendo.




Eu me lembro de passar a noite vomitando, sem dormir. No outro dia minha mãe ao ver os machucados me perguntou o que aconteceu, eu disse que tinha caído na faculdade. Eu parei de ir trabalhar e as pessoas começaram a questionar o pq eu não estava mais indo...

E aí eu descobri que o Feliciano estava dizendo para todos que perguntavam que ele tinha me afastado do trabalho, PQ EU TINHA TENTANDO TER ALGO COM ELE, ou seja, já estava me colocando como a puta da história, típico.

Nessa confusão o Feliciano por me conhecer sabia que uma hora eu iria acabar falando, então todo dia ele mandava alguém falar comigo... Incluindo a então ministra Damares e a "psicóloga" Marisa Lobo, a que defende a cura gay...



Para quem não entendeu, o Feliciano ligou p/ Marisa Lobo pedindo desculpas a ela POR TER ME ESTUPRADO. A Marisa sempre é a pessoa que tenta conversar com as vítimas do Feliciano.

O meu maior erro nessa época foi que eu acreditava que esse tipo de coisa deveria ser resolvida dentro do grupo, para não escandalizar a igreja. Mas aí um dia eu entendi que todos ali iriam tentar abafar o caso.

Nisso, eu entendi muito bem a merda que era o partido e todos ali, então eu só tinha uma alternativa: Me fortalecer. Voltei na Câmara, peguei arquivos de lavagem de dinheiro nas igrejas e comecei a me proteger de todas as ameaças que comecei a receber.

Todos esses arquivos eu entreguei ao MP, na época do caso. E se e uma coisa que eu posso dizer é: Esse povo é perigoso e bandido!

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Baixe aqui: Livro "Relações Indecentes" evidencia a relação entre Moro, Bolsonaro e a mídia


Os fatos revelados pela série "Vaza Jato", publicada pelo The Intercept Brasil, além das relações entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, são o tema do livro "Relações Indecentes" (ed. Tirant Lo Blanch), lançado pelo Instituto Defesa da Classe Trabalhadora (iDeclatra).


Coordenada por Wilson Ramos Filho, o Xixo, Mírian Gonçalves, Maria Inês Nassif e Hugo Melo Filho, a obra reúne textos de 23 autores de várias áreas, desde juristas, passando por economistas, ex-ministros, até jornalistas e sociólogos. A editora Tirant Lo Blanch e o Instituto Declatra disponibilizaram a obra em formato e-book para download gratuito.

Baixe o livro aqui

O Instituto Defesa da Classe Trabalhadora (iDeclatra) lançou mais uma obra: o livro Relações Indecentes. O livro editado pela Tirant Lo Blanch, parceira do instituto, tem 190 páginas e é uma coletânea de artigos de renomados profissionais de diversas áreas de atuação. Eles analisam os fatos revelados pela série "Vaza Jato", do The Intercept Brasil, além das relações entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro.

A obra, coordenada por Wilson Ramos Filho, o Xixo, Mírian Gonçalves, Maria Inês Nassif e Hugo Melo Filho, reúne textos de 23 autores de distintas atuações, desde juristas, passando por economistas, ex-ministros, até jornalistas e sociólogos.

A editora Tirant Lo Blanch e o Instituto Declatra disponibilizaram a obra em formato e-book para download gratuito.


"Os últimos artigos colhidos para esse livro foram escritos nos estertores do ano de 2019, quase um ano depois da ascensão de Bolsonaro ao poder. É uma continuação de Relações Obscenas, editado em setembro do ano passado com a ideia de documentar, para a história, a verdade escrita pela VazaJato", diz trecho do prefácio, assinado pela jornalista Maria Inês Nassif. 


Capítulos

O livro é dividido em seis eixos principais: a subversão do direito, o poder de destruir um país, o poder de destruir pessoas, aliança com a mídia e o uso da religião. Os textos dos intelectuais convidados analisarão temas como a imprudência inconstitucional, os efeitos da operação Lava Jato na economia brasileira, as ironias de procuradores com a morte de Marisa Letícia, o reposicionamentos dos "jornalões" brasileiros com a Vaza Jato, entre outros.


"Sérgio Moro demonstrou, ao trair Bolsonaro, que não mudou seus padrões éticos ao abandonar a toga. Este livro mostra também isso, ao analisar a segunda etapa de publicações do The Intercept Brasil, mas também ao mostrar como se davam as relações entre o presidente e o agora ex-ministro da Justiça. O Instituto Declatra avança na sua missão de registro histórico dos fatos para que futuros pesquisadores possam compreender o que se passa no Brasil nos últimos anos. Mas também é uma obra imprescindível para quem deseja, agora, entender o acontece em nosso País", explica o presidente do Instituto Declatra, Wilson Ramos Filho, o Xixo, um dos coordenadores do livro.


"Relações Indecentes" também segue a linha de registro histórico dos demais livros lançados com o selo do Instituto Declatra: A série da Enciclopédia do Golpe de 2016 – que aborda o papel das instituições na trama que derrubou Dilma Rousseff da Presidência da República – ou ainda a coleção da "Resistência ao Golpe", são alguns de exemplos das produções do Instituto neste sentido e que foram publicadas em séries.

Os últimos artigos colhidos para esse livro foram escritos no final do ano de 2019, quase um ano depois da ascensão de Bolsonaro ao poder. "É uma continuação de Relações Obscenas, editado em setembro do ano passado com a ideia de documentar, para a história, a verdade escrita pela VazaJato", diz trecho do prefácio, assinado pela jornalista Maria Inês Nassif.


Autores

A lista de autores é grande e variada. Fazem parte da seleção: Jessé de Souza, Eugenia Gonzaga, Luís Nassif, Pedro Pulzatto Peruzzo, Vinicius Gomes Casalino, Lênio Streck, José Cardoso, Marco Aurélio de Carvalho, Tânia Oliveira, Mariana Velloso, Rosa Maria Marques, Marília Guimarães, Elika Takimoto, José Geraldo, Everaldo Gaspar de Andrade, Cristiane Cordeiro, Simone Schreiber, Franklin Martins, Bia Barbosa, Marcelise Azevedo, Rute Noemi Souza, Hugo Melo Filho e Anjuli Tostes.

Acesse a página da Defesa Da Classe Trabalhadora  


Fonte: lulalivre.org.br

sábado, 1 de agosto de 2020

Obrigado e boa sorte!

Entrei no Twitter em 2009 por causa do sorteio de uma câmera fotográfica, e nem imaginava o universo progressista que não só encontraria, mas me tornaria parte.

Uma menina me ensinou..., e eu já estava envolvido com as linhas do ansioso blogueiro*. Foi um dos primeiros Blogs ditos sujos que tive contato nessa constelação de muito bons.

Paulo Henrique Amorim e Conversa Afiada dispensam comentários na trincheira anti-golpe e na guerra contra o PIG, sigla por ele criada.
Não tive a oportunidade de pegar um autógrafo seu no meu exemplar do livro "O Quarto Poder", mas numa noite no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, o querido Barão, pude o ouvir.

Dentre muitas das suas experiências compartilhadas, PHA deixou uma que me trouxe a reflexão de como podemos ser dinâmicos na militância.
Relatara que antigamente nas redações, para um artigo dele sair o mesmo percorria uma longa distância e tempo, mas nos dias atuais, ele se tranca ali num lugar e em 15 minutos a matéria já está no ar. 

Realmente eles deixam muita saudade.

Ana Flavia Marx e PHA no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé Foto: Alexandre Salazar




*****



O Conversa Afiada dá adeus. Obrigado e boa sorte!
No Conversa Afiada 




Olá, tudo bem?

Dados o profundo respeito e a imensurável consideração por cada um de vocês, amigos navegantes, este texto vai direto ao ponto: o Conversa Afiada encerrou suas atividades em 31/VII/2020. Esse é o fato. Mas, a partir de agora, você está convidado a entender o que isso significa.

Por mais de uma década, este site idealizado, construído e mantido por Paulo Henrique Amorim e uma pequena - mas aguerrida - equipe serviu de bastião da luta pela formação de uma imprensa independente, progressista e destinada a combater em todas as frentes possíveis o PiG (e seus efeitos deletérios), os golpistas e os traidores da democracia brasileira. PHA foi pioneiro, um revolucionário nas chamadas "novas mídias". Um colosso*!

Não foi fácil empreender essa luta. A aba "Não me calarão", que você pode acessar ao clicar aqui, conta algumas das centenas de batalhas judiciais que o ansioso blogueiro* teve de enfrentar para manter acesa a chama da liberdade de expressão. Como se diz, jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique, e, diante disso, PHA e o Conversa Afiada nunca fugiram à sua responsabilidade.

Em dezembro de 2017, PHA tomou mais uma atitude para defender a nossa liberdade de expressão - não só a dele, ou a do Conversa Afiada, mas a de todos os brasileiros - ao protocolar, na Corte Interamericana de Direitos Humanos, uma petição em que acusava o Estado brasileiro de manter uma distorção sistêmica que cerceia a liberdade de expressão e se torna, na prática, uma forma disseminada de censura e perseguição.


"Essa petição tira a discussão da zona de conforto dos poderosos brasileiros. Ou seja, do Direito apenas. Do 'juridiquês', porque é nesse território e com essa linguagem dissimuladora que eles, os poderosos, se beneficiam da estrutura sistemicamente restritiva, censora. O debate passa a se travar no campo da Liberdade!", escreveu PHA ao anunciar a ida à Organização dos Estados Americanos (OEA).

Mas, se sempre incomodou os poderosos, o Conversa Afiada recebeu equivalentes demonstrações de apoio ao longo dos anos. Faltariam a este editor palavras para agradecer a cada um dos amigos navegantes por tornar possível empunhar a espada do jornalismo independente e progressista por tantos anos. Obrigado por cada mensagem de apoio nas redes sociais, cada assinatura, cada compartilhamento de posts e vídeos. Nada disso seria possível sem vocês.

Esse carinho é simbolizado pelo tricampeonato conquistado pelo Conversa Afiada no Prêmio Influenciadores Digitais, em 2016, 2017 e 2019, na categoria "Economia, Política e Atualidades". Prêmios como esse não são um objetivo em si, mas ilustram o alcance popular do Conversa Afiada e nos enchem de orgulho por mostrar que tantos brasileiros estiveram ao nosso lado. Comprovam essa afirmação os números do Conversa Afiada nas redes sociais: até a data de conclusão deste texto, eram 1,13 milhão de seguidores no Facebook, 634,3 mil no Twitter, 690 mil no Instagram e 985 mil no YouTube.


Em 2019, com a morte de Paulo Henrique Amorim, esta equipe não se permitiu abaixar as bandeiras e abdicar de seu dever perante a democracia. Continuou a defender, dia após dia, os princípios que nortearam o Conversa Afiada desde a sua criação. Os últimos meses, entretanto, foram um desafio duplamente extenuante: além das dificuldades inerentes à luta pela construção de uma imprensa independente e progressista, a equipe teve de lidar 24 horas por dia, 7 dias por semana com o peso de uma ausência irreparável - porque, afinal de contas, há sim pessoas insubstituíveis.




O Conversa Afiada, embora tenha interrompido em 31/VII/2020 as atualizações, continuará no ar. Os artigos, as reportagens e os vídeos que tiraram o sono dos inimigos da democracia e dos vendilhões da pátria continuarão à disposição dos amigos navegantes.  

Quanto a esta equipe... Bem, tenha certeza de que ela continuará a se basear nos mesmos princípios que sustentaram o Conversa Afiada ao longo dos anos. Em todas as plataformas possíveis, a luta pela democracia e em defesa da liberdade de expressão continuará. Afinal, é essa a melhor homenagem possível ao ansioso blogueiro*; é, também, a mais sincera demonstração de respeito e gratidão ao patrono deste espaço, a quem agradeço - em nome de toda a equipe - pela sabedoria e pela confiança compartilhadas.


Em nome de todos os jornalistas que, ao lado de Paulo Henrique Amorim, fizeram do Conversa Afiada a principal referência na imprensa independente e progressista no Brasil, agradeço a você, amigo navegante.

Como dizia nosso ansioso blogueiro*, vamos tocar o barco - hoje e sempre! Boa noite e boa sorte!!!

Leonardo Miazzo, editor do Conversa Afiada e da TV Afiada






*P.S - Passar o mouse no original do Conversa Afiada

sábado, 6 de junho de 2020

Carta de Isabel, do vôlei, para Ana Paula Hanckel

No Blog do Juca Kfouri 

"Ana Paula, depois de ver algumas de suas postagens, tive vontade de te responder. 

Como nunca tive paciência para redes sociais, fui deixando passar. 

De mais a mais, não há como esquecermos o fato de que as redes estão aí para dar voz a todos: muitas pessoas fantásticas e muitos….

Esse é o preço da chamada democracia digital – que sempre deve ser debatida, é claro -, mas vamos ao que interessa no momento. 

Antes, preciso admitir também que sempre me senti constrangida quando lia as suas postagens. 

É que o seu nome está ligado ao vôlei, esporte que pratiquei durante muitos anos e, infelizmente, muitas pessoas generalizam esse tipo de fala e me perguntam se as jogadoras de vôlei são, na sua maioria, de extrema direita.

Nesses momentos, eu sempre tento explicar que você está longe de representar um perfil do vôlei feminino brasileiro. 

E que, na verdade, o vôlei, assim como a maioria dos campos profissionais e atividades, não pode ser enquadrado em algum perfil ideológico.

Explico, também, para essas pessoas, que talvez pelo fato de você ter se casado com um americano branco, você tenha sentido a necessidade de se alinhar a uma branquitude, que tem como uma de suas características principais a incapacidade de perceber o seu lugar de privilégio, uma branquitude que naturaliza o lugar de poder branco e torna a supremacia branca uma norma.

Afinal, sabemos que ser imigrante por essas bandas daí não é muito fácil, ainda mais com um biotipo latino.


Durante o período colonial, o psiquiatra Frantz Fanon explicou bem o surgimento e a formação desse desejo de identificação com o opressor entre muitos colonizados. 

Trata-se de uma neurose que o leva a um comportamento adoecido e alienado, por não conseguir lidar com a realidade que o cerca. 

A história nos ensina que o colonialismo acabou, mas ela também nos mostra que ele permanece com roupas neocoloniais. 

O vídeo que postou da jovem negra é exemplar de como permanece essa alienação. 

Temos aqui no Brasil um exemplo caricatural desse comportamento desequilibrado: o diretor da fundação Palmares.

Ultrajano


Por isso, te sugiro prestar atenção ao que está acontecendo a sua volta. Existem muitas pessoas que permanecem nesse estágio, tentando apenas apagar suas origens não brancas. 

Você posta constantemente frases e ideias que destilam muito preconceito. Mas o seu último post foi a gota d’água e me chocou e revoltou pela profunda ignorância e irresponsabilidade. 

Sua falta de conhecimento a respeito do racismo e do que ele significa são atrozes. Infelizmente, o racismo existe no Brasil, nos EUA e no mundo, e muitas pessoas ainda são incapazes de enxergar uma realidade que grita com todos os pulmões. 

Se você quer usar dados estatísticos como argumentos, procure fontes sérias e não tendenciosas. Aí você vai entender que o racismo é um dado estrutural, que atua na política, na economia e na subjetividade, como explica tão bem o filósofo Sílvio Almeida. 

Sua apologia ao governo Trump reflete muito mais o seu mal estar e quiçá o desejo de pertencimento a uma sociedade que você imagina respaldar apenas valores WASP, uma sociedade que precisou mostrar ao mundo as mais assustadoras formas de violência racial, até surgirem as primeiras grandes mudanças com Martin Luther King.

Felizmente, o racismo não só empobrece o ser humano, mas também produz cada vez mais força e resistência. 

E é isso que está acontecendo nesse momento nos EUA, quando milhões de pessoas de todos os grupos étnicos se unem para demonstrar o seu repúdio ao racismo que ainda atinge sobretudo os negros.

Observe atentamente a sua volta e verá que, no momento atual, a sociedade americana parece estar no caminho de mais uma mudança e mais uma conquista no rumo da igualdade. 

Peço que considere a responsabilidade de ser uma pessoa com milhares de seguidores também no Brasil. 

Preste mais atenção ao que diz, antes de postar sobre um tema tão sério.


Leia os historiadores, sociólogos, antropólogos, cientistas de várias áreas que discutem as formas e as consequências do racismo ou, pelo menos, demonstre um pouco de consciência diante do negacionismo e das barbaridades que estão acontecendo no Brasil. São tantas que se torna difícil destacar apenas uma. 

Se não consegue ter empatia diante da dor alheia, melhor ficar em silêncio.

Usando as redes como tem usado, você presta um desserviço no processo de combate ao racismo. 

Vidas negras importam!".

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Situação das emissoras no Brasil cataclísMICO

Band
Após presidente da Caixa dizer na reunião ministerial que Band pediu dinheiro Datena surta ao vivo e Jornal da Band muda o editorial.

SBT
Também conhecido como Sistema Bolsonarista de Televisão, deixou de apresentar o SBT Brasil no último sábado. Versões afirmam que Bolsonaro teria pedido para SS pedir para seu editorial pegar leve com a reunião ministerial do dia 22 de Abril. Há também quem observe motim dentro do jornalismo do SBT, onde cansados de passar pano para o governo, editorial não teria subido.

Globo
Eternamente golpista foca 24 h de sua programação na figura Bolsonaro deixando fora dos holofotes o entreguista Paulo Guedes, homem que serve ao deus Mercado e beneficiário de figuras do seu interesse, assim como os do próprio Grupo.

Record
Editorial 100% comprometido com o governo. Apresenta 10% da pandemia em relação à sua principal concorrente. Enfrenta saia justa com choro ao vivo da então apresentadora e âncora Adriana Araújo pelo fato de ver dia a dia casos crescentes do coronavírus e ao mesmo tempo seus diretores tratando tudo com pouca relevância. O ápice foi no dia em que a cidade de Manaus alcançou internações e mortes catastróficas e contrariada não pode noticiar de forma isenta.
Confirmando seu papel histórico no negacionismo bolsonariano da pandemia do coronavírus a emissora chama para sua madrugada, longe dos twiteiros de plantão (sic), os doutores Anthony Wong e Nise Yamaguchi, profissionais que remam na contramão de toda a ciência em todo o planeta.


Sem mais.



quarta-feira, 20 de maio de 2020

#SleepingGiantsBrasil



No último domingo 17, subiu o perfil Sleeping Giants Brasil no Twitter. A conta chega seguindo a linha da 
Sleeping Giants desmonetizando sites mentirosos propagadores de fake news e informações preconceituosas.

Segundo matéria do El País tal ação já deixou sem publicidade sites de fake news nos Estados Unidos e também na Europa, ao ponto do seu fundador Matt Rivitz já ter sido vítima de ameaças de morte.



A tática de guerra é arrojada, quando uma empresa faz um anúncio no Google Ads, por exemplo, existe a opção "Anúncios de texto na Rede Display" onde tal anúncio será vinculado pelo buscador em alguns entre os milhares de sites, blogs ou portais nos quais jamais o anunciante imagine.

Então entra a colaboração das pessoas que detectam anúncios de empresas em sites que propagam fake news, tais colaboradores postam prints no Twitter marcando o @slpng_giants_pt .
#SleepingGiantsBrasil irá informar tal empresa de que sua marca está vinculada a uma notícia mentirosa ou preconceituosa e esses mesmos colaboradores também cobrarão publicamente a retirada do anúncio.

Diferente da tática de boicote muito solicitada por ativistas em redes sociais contra marcas e empresa que financiam o ódio e o extremismo online, a desmonetização de quem pulveriza isso se mostra bem mais promissora.

"Estou bastante cansado depois de quatro anos lutando contra a corrente, mas acredito que vale a pena e seguiremos na primeira linha de ação quando a pandemia passar para segundo plano" - diz o fundador.



Mais sobre o assunto:

https://brasil.elpais.com/icon/2020-05-17/o-homem-que-arruinou-a-extrema-direita-nos-eua.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-05-20/movimento-expoe-empresas-do-brasil-que-financiam-via-publicidade-sites-de-extrema-direita-e-que-propagam-noticias-falsas.html?ssm=FB_CC&fbclid=IwAR2RJ2EIn45nRZiGOmlbV0u6RZJ_EdxnrNnzLrrwUJyEPhdIwaLySDsD1vg 

terça-feira, 19 de maio de 2020

Bar-sonaro

Ela é mais uma vítima do negacionismo vindo do Planalto. Definitivamente o ocupante do cargo máximo da República se tornou parceiro do coronavírus.

Seus discursos, hora falando em gripezinha, hora homologando a cloroquina, passando por falsas notícias de queda de mortos ou infectados e comparando a covid-19 à outras doenças, lembra cenas de filme, filme de tiranos...

Ela, uma comerciante de Itinga do Maranhão, cidade distante cerca de 120 Km de Imperatriz na divisa do Maranhão com Tocantins.
Seu estabelecimento se chama Bar-sonaro e assim como o presidente desdenhou da pandemia.

Diferente dos comentários da extrema direita do tipo "Tem que morrer", "Bandido bom é bandido morto", "Não tem perdão"... os comentários são de votos de melhoras e orações na página que publicou o ocorrido.






Que o recado seja compartilhado, fique em casa e se cuide!


Fonte Itinga Online

segunda-feira, 4 de maio de 2020

AINDA RESTA ESPERANÇA

Recentemente, na porta do supermercado, rolava uma conversa interessante num grupo de pré-adolescentes sobre a pandemia, o isolamento social e a contaminação pelo coronavírus. Me pareceu que eles eram moradores das redondezas e estavam ali tentando arrumar algum dinheiro para ajudar em casa.

Quando eu estava próximo, ouvi um deles, que aparentava exercer liderança sobre os demais, falar muito convicto:
- A gente tem que ter cuidado com o "perdisgoto"!
Imediatamente um outro retrucou:
- Tomar cuidado como, se tem esgoto pra todo canto na favela?
Um terceiro complementou, cheio de certeza:
- Tem até gente que tem vala passando dentro da casa...e depois na favela tá tudo perto de esgoto!
Então o primeiro, indignado e aos gritos, resolveu colocar os pingos nos "is", soletrando aquela palavra difícil de entender:
- É "PER-DIS-GO-TO" PORRA! CAMBADA DE MOLEQUE BURRO!
E, abaixando a voz, resolveu explicar para o grupo, em tom quase professoral:
- "Perdisgoto" é nojento, mas não é esgoto...

Respirei aliviado. Apesar de falar a palavra de forma incorreta, ali havia alguma esperança. Disfarcei que ia pegar um carrinho para fazer compras para ouvir (bisbilhotar, na verdade) o restante da aula. E ele continuou.
- Lembram daquele moleque que mora lá naaa...naaa... que o apelido dele é chuveirinho? O apelido é porque ele fala cuspindo na gente, não é?
Rapidamente todos balançaram a cabeça positivamente. E ele continuou...
- Então, "perdisgoto" é aquele cuspe que sai da boca sem cuspir e que cai na gente quando ele fala. O tal vírus pode tá ali.

Eta moleque porreta, pensei! E já ia me afastando satisfeito com a explicação objetiva e correta, à moda dele, afinal o importante é comunicar, passar a ideia. Simplesmente maravilhoso ver como esses jovens aprendem com facilidade, mesmo diante da adversidade extrema.

Ao perceber que todos silenciaram para ouvi-lo, o jovem com ar de professor resolveu continuar sua aula pública, mais compenetrado e convicto ainda do que quando começou:
- Entenderam? "Perdisgoto" não tem nada a ver com esgoto. "Perdisgoto" faz mal pra saúde! Esgoto não (faz mal). A gente pode até se banhar que não vai acontecer nada.


Foto: Joédson Alves














Como assim, pensei? Paralisei com aquele absurdo que acabara de ouvir. E apesar da vontade imensa de me meter na conversa, resolvi escutar mais um pouco para ver haveria uma explicação lógica, mesmo que não fosse convincente, para tal afirmação. E o menino continuou a falar...e, então, disparou uma frase que soou como um golpe fatal e derradeiro na esperança que eu havia sentido poucos minutos antes, e a esperada explicação lógica veio com sua última frase:
- Vocês não viram o presidente falar?

Quase tive um treco! Demorou um pouco, mas passado o susto e avaliando melhor a situação, concluí que posso continuar acreditando que há salvação. Afinal, aquele jovem era um exemplo de que o aprendizado é muito natural e dinâmico para essa moçada. Da mesma forma que ele aprendeu que o "perdisgoto" pode transmitir o coronavírus, ao ouvir pesquisadores e professores na televisão, também aprendeu que esgoto não faz mal, ao ouvir a ignorância presidencial através da mesma televisão.
O veículo de informação foi o mesmo, embora as fontes de informação tenham sido bem diferentes e, principalmente, distintas nos seus objetivos.

Resignado, e sem alternativas viáveis naquele exato momento, tive que respirar fundo e me recuperar aos poucos. E enquanto retornava à minha realidade de classe média, pensava com meus botões e com mais convicção ainda: "É nessa juventude que nossas esperanças se renovarão. Portanto, nossa luta tem que ser por uma educação crítica e que os leve à emancipação"!


Crônica do meu primo querido Jeferson Salazar em sua página no dia a dia do Rio de Janeiro.

sábado, 4 de abril de 2020

Anos 20, o que nos espera?



















Anos 60 - Protesto
Anos 70 - Hip Hop/ Punk
Anos 80 - Vallauri, Ozi, Gitahy, Juneca, Villaça...
Anos 90 - Beautiful Losers
Anos 2000 - Cyber Graff
Anos 10 - Abraço do PPP (Poder Público Paulista)
Anos 20 - ?

Em tempos tempos,
#DitaduraNuncaMais

segunda-feira, 30 de março de 2020

Curvas



É hora de lembrar de quantos esforços e sacrifícios todos nós já fizemos contingencialmente por conta de alguma adversidade ou perda ou ainda propositalmente por força de uma economia para compra de algo importante como casa, carro, viagem, ou para pagar estudos e casamento.

Apertar o cinto para que aqueles que já estavam aqui antes de nós possam viver, possam desfrutarem de uma paisagem, mesmo que virtual.





















Mas e a economia? É a pergunta feita por todos que esquecem das suas lutas do passado. O pobre vive de luta, o rico também. Um tem reservas, e o pânico e a insônia dominam os pensamentos daquele que tem medo de perder. O outro já perdeu faz tempo, vem sempre perdendo e não adianta o falso moralismo dos poderosos, os pobres perderão tanto em quarentena como tentando trabalhar.




Nisso tudo a classe média segue seus instintos, nas redes e na tentativa das ruas, joga do lado do rico.
Num nublado horizonte há os que sigam o discurso de um forte aliado do presidente "Ser aliado não é ser alienado", e vão até a borda do poço com o "capitão" preferindo ficar em casa.
Alguns desses escrevem textões de desabafo nas redes tipo "Votei no Bolsonaro, mas...". Outros ficam em casa e se calam, acredito que para não darem munição à oposição.


A OMS dá orientações enquanto o poderoso chefinho do Planalto põe na parede seu subordinado signatário do órgão e continua fazendo suas pirraças.

E eu continuo aqui do meu quintal observando e sendo observado, curtindo e torcendo para que todos possam continuar curtindo essa paisagem, mesmo que só virtualmente.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

O jornal que Hitler odiava







Não foram pesquisadores alemães, mas um jornalista americano, Ron Rosenbaum, quem primeiro percebeu e divulgou a importância da luta contra Hitler por um pequeno jornal de Munique, o Münchener Post, que os nazistas chamavam de “a cozinha venenosa”. Em seu livro Para Entender Hitler, Rosenbaum escreveu que a batalha “entre Hitler e os corajosos repórteres e editores do ‘Post’ é um dos grandes dramas nunca relatados da história do jornalismo”. Eles foram, disse, os primeiros a se ‘atracar’ com o líder nazista, os primeiros a ridicularizá-lo, os primeiros a investigá-lo, a denunciar o lado avesso e sujo de seu partido, o comportamento criminoso e homicida mascarado por suas pretensões a movimento político, e foram os primeiros a tentar alertar o mundo para a natureza da besta feroz que rastejava em direção a Berlim. Foi ainda a primeira publicação a escrever sobre “a solução final” para os judeus.

Rosenbaum acrescenta que a história do Post e de seus jornalistas “nunca foi contada de verdade, sequer na Alemanha, ou talvez especialmente na Alemanha, onde é mais consolador para a autoimagem nacional acreditar que ninguém realmente sabia quem era Hitler, até ser tarde demais”, mas “os redatores do Münchener Post sabiam, eles publicaram a verdade para quem estivesse disposto a vê-la”. Em 12 anos de luta, o jornal divulgou algumas das percepções mais agudas e penetrantes do caráter, dos métodos e da mente de Hitler.

Rosenbaum explica o significado de “cozinha venenosa”. “Venenoso” era uma expressão reservada por Hitler para aqueles a quem odiava mais profundamente, era o epíteto com que se referia aos judeus: “envenenadores”. É difícil encontrar em seu vocabulário outra palavra mais carregada de ódio e aversão.

Tentativa de ignorar o passado

Depois da primeira edição do livro de Rosenbaum, em 1998, alguns pesquisadores voltaram sua atenção para o Münchener Post. A também americana Sara Twogood escreveu um longo ensaio sobre o jornal e na França foi divulgado um documentário dez anos atrás, Le Münchener Post Contre Hitler.

Recentemente, foi publicado o primeiro livro sobre o Münchener Post, intitulado A Cozinha Venenosa. A autora é a jornalista brasileira Silvia Bittencourt, que mora na Alemanha há mais de 20 anos e trabalha na Universidade de Heidelberg. O livro é uma agradável surpresa. Quando o autor desta resenha fez uma pesquisa a respeito do Süddeutsche Zeitung (SZ), de Munique, o de maior circulação e o mais liberal dos diários alemães de qualidade, não encontrou nenhuma referência ao Münchener Post. Mencionou a existência do Münchener Neueste Nachrichten, o principal jornal de Munique e concorrente do Post. Depois da Segunda Guerra Mundial, suas instalações foram utilizadas pelo SZ, que também empregou vários de seus ex-jornalistas. Ao escrever sobre a fundação do Süddeutsche Zeitung, mencionou que seu editor-chefe, Edmund Goldschagg, tinha dirigido um jornal de Munique até 1933. O que não sabia, até ler A Cozinha Venenosa, é que esse jornal era precisamente o Münchener Post.

Mas ainda hoje é chocante a ignorância na Alemanha sobre o principal inimigo de Hitler na imprensa escrita. Tanto Rosenbaum como Silvia estiveram na Altheimer Eck, a rua de Munique onde o Post tinha a sede, e não encontraram nenhum resquício dele, sequer uma placa. Ninguém o conhecia. Silvia procurou os descendentes dos principais jornalistas do Post e percebeu que também eles pouco sabiam de sua luta contra Hitler. A produção sobre o jornal continua escassa, principalmente na Alemanha. Talvez, como diz Rosenbaum, uma tentativa de ignorar um passado pouco agradável.

Tratado imposto

O Münchener Post foi fundado em 1886 ou 1887. Era um semanário de quatro páginas de pequenas dimensões que logo ficou ligado ao Partido Social Democrático (Sozialdemokratische Partei Deutschlands – SPD). Em 1890, passou a circular diariamente, à tarde, com uma tiragem de 5 mil exemplares. Mais tarde, teria oficinas próprias e seis jornalistas fixos e bem pagos, que também eram ativistas políticos. Vários deles ocupariam altos cargos na administração pública. Tornou-se um importante formador de opinião da Baviera. Passou a tirar 30 mil cópias. Posteriormente, publicaria também o semanário Bayerisches Wochenblatt. Em 1914, escreveu contra a entrada da Alemanha numa eventual guerra, mas, quando esta começou, seguiu a linha do partido, mudou de orientação e prestou uma “valiosa colaboração patriótica”, segundo o Ministério da Guerra.

Derrotada, a Alemanha atravessou um período conturbado. Um dos principais jornalistas do Post, Kurt Eisner, chegou a ser, por um curto período, ministro-presidente (governador) e chanceler da República da Baviera. Morreu assassinado a tiros. Quando outro jornalista do Post e político do SPD, Erhard Auer, fazia uma oração fúnebre por Eisner, foi também baleado, mas sobreviveu. O poder na região foi ocupado pelo Partido Popular Bávaro, conservador, que cercearia repetidas vezes a circulação do Post.

Como praticamente toda a Alemanha, o jornal ficou indignado com as condições do Tratado de Versalhes, de 1919, imposto pelos vencedores, que declarava a Alemanha culpada pela guerra, tirava todas as suas colônias, reduzia seu exército, tomava-lhe uma parte do território e impunha pesadíssimas reparações. O rigor das medidas favoreceu a ascensão do nazismo.

Duvidosa homenagem no Mein Kampf

Em abril de 1920, o Post mencionou a existência do “partido da suástica” (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães); em maio, num texto com destaque, chamava a atenção para um personagem que fazia inflamados discursos nas cervejarias e emergia na cena política – era um austríaco, um pintor fracassado, antigo cabo do exército alemão: “Na terça-feira à noite, um senhor chamado Hitler falou sobre o programa desse ‘partido’. Ele soltou as mesmas palavras e disparou os mesmos clichês que somos obrigados a ouvir nos eventos de propaganda nacionalista. Caluniou a social-democracia por sua defesa da Internacional e pregou o antissemitismo nos moldes nacionalistas.”

O Post seria o único jornal de Munique a cobrir regularmente, e cada vez com maior intensidade, o movimento nazista e as atividades de Hitler. Como diz Silvia Bittencourt, as notas publicadas eram cada vez maiores, mais frequentes e mais afiadas, criticando principalmente o antissemitismo. Numa delas, escreveu que Hitler se comportara mais como um comediante e que sua palestra, “lembrando uma cantiga, trazia a cada três frases o refrão ‘a culpa é dos hebreus’. Não há infâmia ou porcaria que não seja atribuída aos judeus”.

As notas sobre Hitler se repetiram e ele passou a provocar os repórteres do jornal nos comícios. Numa ocasião, disse que o homem do Post deveria tirar sua pele de cordeiro e sairia, daí, um burro. Atacava o jornal em suas falas e nos artigos para o Völkischer Beobachter, jornal do partido nazista. Dizia que “não se passava um dia sequer sem que o Münchener Post, uma das publicações judaicas mais imundas, manchasse e sujasse pessoas corretas”; era o “sapo judaizante da Altheimer Eck”, um “jornal judeu e marxista” e “arremessador piolhento de lama”. Ele ficou furioso com um texto provocador: “Adolf Hitler traidor?”, mostrando o descontentamento de vários de seus correligionários e questionando a origem das finanças do partido e a vida de luxo do seu líder. A partir de então, o Post ficou na mira de Hitler, que lhe prestaria a duvidosa homenagem de mencioná-lo nominalmente em sua obra Mein Kampf.

Fim dos males

Num de seus discursos, Hitler disse, dirigindo-se ao editor responsável: “Senhor Auer! O senhor e sua injeção de veneno têm grande parte da culpa pela miséria que o povo alemão vive hoje. Senhor Auer! O senhor recebeu dinheiro dos judeus do gado, o senhor se vendeu para os judeus.”

O jornal que enfrentava Hitler publicava longos textos teóricos e ensaios; tinha boas páginas culturais, mas era extremamente intelectualizado para os trabalhadores e a maioria da massa do partido. Sua pequena equipe dividia o tempo com a política, dedicando menos atenção ao jornal. Seu editor era também líder do Partido Social-Democrata da Baviera. Apesar de sua coragem e sua contundência, talvez não fosse a arma mais apropriada para a batalha. Mas foi o mais aguerrido na luta. O Post foi fechado e censurado repetidas vezes, como toda a imprensa de esquerda, por um Poder Judiciário ultraconservador, e a polícia invadiu sua sede, numa ação movida por “traição à pátria”. Mas no começo dos anos 1920 alcançaria uma tiragem de 60 mil exemplares. Ante a opacidade das finanças do partido nazista e as ligações de Hitler com a burguesia industrial, que o financiava, o Post perguntava: “O que, exatamente, ele faz para ganhar a vida?” E mostrava “como Hitler vive”.

Hitler capitalizou habilmente as dificuldades enfrentadas pela Alemanha na República de Weimar: o desemprego, a ocupação da região do Reno pelas tropas francesas, a inflação galopante – o preço de uma passagem de ônibus chegou a custar 150 bilhões de marcos e um dólar era trocado por 4,2 trilhões de marcos. Ele prometeu acabar com os males do país, que atribuía aos judeus. O número de afiliados ao partido nazista cresceu exponencialmente, assim como a fama de seu líder.

Informações confidenciais e documentos secretos

Em 1923, Hitler superestimou sua força. Tentou dar um golpe de Estado, conhecido como o “putsch da cervejaria”, com lances de ópera bufa, e fracassou. Durante os tumultos, os nazistas invadiram e destruíram as instalações do Post, o que levou o Völkischer Beobachter a escrever: “A cozinha venenosa na Altheimer Eck foi demolida”.

Julgado por alta traição, num processo que o jornal católico Bayerische Kurier qualificou como uma “catástrofe jurídica” e o Post como “túmulo da Justiça bávara”, Hitler foi condenado a cinco anos de prisão, em condições que “lembravam mais um hotel do que uma penitenciária”, que ele aproveitou para escrever Mein Kampf. The New York Times, que fazia uma boa cobertura da Alemanha, acreditou que a carreira política de Hitler estava encerrada. Foi solto, pouco mais de um ano depois, por boa conduta, refundou o partido e retomou a ascensão política meteórica, apesar de sua condição de apátrida, pois perdera a nacionalidade austríaca em 1925 sem conseguir a alemã.

No fim dos anos 1920 e começo dos 30, o Post atravessou momentos difíceis. Atingido pela crise econômica, tinha uma existência precária, agravada pelas depredações e pela contínua atitude hostil do governo bávaro, que o proibia, com frequência, de circular; seus jornalistas sofriam represálias e agressões físicas ante a complacência da polícia. Foi obrigado a diminuir o número de páginas, a tiragem caiu. Isso não impediu que o jornal aumentasse a intensidade dos ataques a Hitler, aos nacional-socialistas da cruz suástica e a seu adversário, o Völkischer Beobachter, que fora relançado e contava com mais recursos. O Post mostrou ter um incrível acesso a informações confidenciais e documentos secretos dos nazistas. Atacou também os comunistas, responsabilizando-os igualmente pela violência no país.

Ciúme doentio

Quando os nazistas tiveram um revés nas eleições de 1930, o Post subestimou seu futuro político. Mas a depressão e o desemprego decorrentes do crash da bolsa de Nova York, em 1929, levaram um grande número de alemães a depositar suas esperanças nas promessas de Hitler. Nas eleições seguintes, seu partido aumentou o número de votos, assim como os comunistas.

Para deter o avanço nazista a qualquer custo, o Post lançou o que Silvia Bittencourt considerou “a campanha mais suja de sua história”, e “desonesta e ambígua”, mas que Rosenbaum qualifica como um mergulho no coração desagradável da cultura de chantagem do partido de Hitler. Tratava-se de uma carta de um consultor jurídico do partido, Eduard Meyer, a Ernest Röhm, o chefe das forças de choque, as “camisas-pardas”, do movimento hitlerista. Nela, Meyer contava em detalhes episódios da vida homossexual de Röhm, a quem chantageou. A carta foi entregue pela noiva de Meyer ao Post, que pagou por ela e a publicou com o título “A vida sexual no Terceiro Reich”. A repercussão foi extraordinária. Röhm alegou que a carta era falsa e processou o jornal, para mais tarde retirar a queixa e pagar as custas do processo, que foi arquivado. Meyer se matou e a noiva foi condenada a oito meses de prisão. Mas o escândalo não abalou a ascensão de Hitler.

A “cozinha venenosa” também explorou o suicídio da atraente meia-sobrinha de Hitler, Geli (Angela Maria) Raubal, que morava em sua casa; ele foi, talvez, o grande amor de sua vida, mas não há provas de que fossem amantes. O Post quis saber qual era o papel de Hitler, doentiamente ciumento. Foi tão intenso o ataque do Post que Hitler ameaçou com um processo e pensou em suicídio. Mas conseguiu a cidadania alemã; em novembro de 1932, seu partido foi o mais votado e em janeiro do ano seguinte ele foi indicado para o posto de chanceler (primeiro-ministro).

Memória preservada

Em março de 1933, os nazistas invadiram de novo as instalações do Post. A maioria, escreveu um jornalista, “tinha cara de menino”. Destruíram com fúria o que encontraram, máquinas de escrever, telefones, até as torneiras das pias dos toaletes, jogaram móveis pelas janelas, fizeram uma fogueira com documentos, arrasaram as oficinas. Dessa vez, acabariam com o jornal para sempre. Os jornalistas tiveram que se esconder. Seus ataques contra Hitler tinham sido implacáveis. Eles, segundo Rosenbaum, “tinham a ficha de Hitler, tinham enxergado dentro dele (…) Eles tinham visto o Hitler dentro de Hitler e, creio, Hitler sabia que eles sabiam”. Pagaram por isso. Foi o fim de uma luta que durou doze anos.

A obra de Silvia Bittencourt, resultado de árdua pesquisa, mereceria uma ampla divulgação, principalmente na Alemanha, onde o primeiro e mais persistente opositor de Hitler é ainda praticamente ignorado.

Ao livro podem ser feitas algumas observações. O New York Herald Tribune não estava, na época, ligado ao New York Times; a ligação se daria várias décadas mais tarde, com sua edição internacional, depois de desaparecer a edição de Nova York. O livro afirma que Edmund Goldschagg, ex-editor do Post, fez sozinho o projeto do Süddeutsche Zeitung em 1945. Na verdade, o lançamento foi obra de três pessoas: Goldschagg, diretor de redação; August Schwingenstein, publisher; e Franz-Joseph Schoeningh, editor cultural, aos quais se juntaram dois ex-executivos do Münchner Neueste Nachrichten; eles foram os acionistas do jornal. A autora menciona os artigos de Konrad Heiden, correspondente em Munique do Frankfurter Zeitung. Mas, preocupada em destacar a oposição do Post, talvez não tenha dado a importância devida à posição desse jornal contra Hitler, o mais influente da época e antecessor do atual Frankfurter Allgemeine Zeitung. Antes de ser tomado pelos nazistas, era um diário liberal, independente, “a voz da razão que emanava das províncias”, segundo Peter Gay. Para Hitler, era “um jornal-víbora judeu”.

Mas nada disso diminui a importância da “cozinha venenosa”. Ao destruir seu grande inimigo, em 1933, Hitler quase conseguiu também erradicar a memória sobre ele, que só agora está sendo resgatada.

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Matías M. Molina é autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição